As 7 Maravilhas da Natureza eleitas pela New7Wonders

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A América do Sul ganhou com a Floresta Amazônica e a Foz do Iguaçú

segunda-feira, junho 20, 2016

Sr. Amandio Micolino, reflorestador ecológico, responsável por restaurar uma área de 7,5 hectares em Canarana/MT, com apoio do ISA, um exemplo de boas práticas junto ao Cerrado Brasileiro.

Dinalva Heloiza 

Em final 2015, às vésperas da realização da COP-21 - Conferência das Partes da Convenção-Quadro da Organização das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima, vem se buscando dados mais atuais sobre a situação do Cerrado brasileiro, nesta época o MMA lançou dados sobre a situação do Cerrado brasileiro relativos a 2011.

Alguns dados mais atuais, realizados por organizações não governamentais, revelam que menos de 48% da vegetação original encontra-se total ou parcialmente conservada, e, para piorar, o desmatamento vem aumentando em grande medida nos últimos anos, sendo maior até mesmo que o da Amazônia.
                                       
Sr. Amandio Micolino e sua filha Elisete Ines, segurando  o Livro - Agricultores que cultivam árvores no cerrado - Parceria do WWF, ISPN, IBAMA - Que traz um capítulo sobre as boas práticas de reflorestamento utilizadas pelo senhor Amandiop. 

As causas dessa devastação estão diretamente ligadas ao avanço das queimadas; a retirada de suas matas para a utilização do solo na agropecuária; a omissão do poder público em preservar esse domínio natural visto a falta de esforços em sua conservação ao longo do século XX e ainda a não inclusão do Cerrado no contexto das áreas de preservação natural na Constituição de 1988. Apenas 3% da área do Cerrado são formadas por reservas e unidades de conservação, um índice muito baixo.
Dados da Organização Conservação Internacional estimam que, caso o processo de devastação do Cerrado continue, suas reservas durarão somente até 2030.

Mas um aspecto salutar está ocorrendo no bioma Cerrado, e é conduzido pelos próprios agricultores. Não é raro, que agricultores possuam conhecimentos que contribuam para o desenvolvimento e restauração de paisagens, de boas práticas de reflorestamentos e restauração de matas nativas, uma visão em sustentabilidade, essencial aos dias atuais.

Sr. Amandio Micolino,

Hoje conversamos com um desses restauradores das florestas nativas do Cerrado, o Sr. Amandio Micolino, um octogenário que alcançou o reconhecimento de inúmeros pesquisadores de várias partes do mundo, jornalistas, acadêmicos, estudantes e também obteve o apoio do (ISA) - Instituto Socioambiental, para realizar a restauração florestal em áreas de pastagens de sua propriedade, por meio da Campanha Y Ikatu Xingu que visa restaurar as matas ciliares dos rios tributários do rio Xingu.

Aqui Senhor Amandio Micolino, me mostra um registro de visitas que ele teve de pesquisadores, jornalistas, acadêmicos e estudantes de todas as partes do mundo e de todo o Brasil. 

Neste aspecto o Instituto contribuiu com o planejamento do plantio, o fornecimento de sementes, e assistência técnica. A partir das técnicas utilizadas advindas do conhecimento do Sr. Amandio, foi possível o controle da braquiária, antes e após o plantio, o que garantiu o sucesso do plantio de árvores por sementes.  Atualmente o conhecimento e o sucesso dessa experiência promoveram o respeito e o reconhecimento do trabalho desse reflorestador que conseguiu restaurar 7,5 hectares, num total de três áreas de pastagens, pelo período de três anos consecutivos.

                                                       Senhor Amandio e sua filha Elisete. 

Mas quem é Amandio Micolino e como surgiu a vontade de preservar e restaurar essas áreas antes utilizadas para o agronegócio?

Natural de Sobradinho no Rio Grande do Sul, ainda criança ganhou de presente de seu avô uma enxada. Aos 11 anos se mudou para o município de Tenente Portela, também no RS, onde conheceu o trabalho do IBAMA, e com o apoio de amigos, iniciaram uma Cooperativa, cujo objetivo era integrar agricultores para colonizar terras financiadas pelo governo federal, em áreas mais isoladas do país. Entre esses amigos, estavam Norberto Schwartz e Orlando Roever.

Através desses amigos, Sr. Amandio e mais outros pequenos agricultores do sul, foram conduzidos até a região de Canarana no MT, onde inicialmente alguns desistiram da região, devido ao isolamento e dificuldades de acesso, mas Amandio Micolino resolveu enfrentar o desafio e após definir a área de sua propriedade, a Fazenda São Roque, uma área de 400 hectares, teve que aguardar mais dois anos, enfrentando muitas dificuldades, até a liberação do financiamento que lhe permitiria iniciar o plantio em maior escala nas suas terras.

Sr. Amandio, em plena atividade na Fazenda São Roque ( Foto Tim Lewis)

Sr. Amandio lembra, um dos momentos difíceis nesse início, foi o volume da produção que exigia uma contrapartida grande em estocagem, o que não ocorrera gerando desafios, esses foram superados, mas com dificuldades. Ali Sr. Amandio cultivou arroz, café e eucalipto.

Com o passar do tempo optou pela criação de gado de corte, e o arrendamento de parte de suas terras para o cultivo de soja. Já em 2008, decidiu iniciar a reflorestação das áreas que foram utilizadas para a pastagem. Algo mudara em sua concepção.

“Eu sempre pensava em fazer alguma coisa, plantar alguma coisa pro meio ambiente, que tanta riqueza me deu. Então eu fiz esse plantio, mas não foi com interesse de ganhar dinheiro. Fiz para deixar alguma coisa para o futuro. Porque tudo que tenho foi derrubando árvore, mas sempre dentro da lei. Aqui eu não derrubei tudo o que podia derrubar, eu deixei um tanto pra Reserva Legal. Mas agora que estou com a vida arrumada, porque eu vou querer fazer dinheiro, se eu não vou levar mesmo? Eu não planto mais porque a minha saúde não me permite.” trecho de um comentário do Sr. Amandio Micolino, publicado no livro intitulado “Agricultores que cultivam árvores no Cerrado” - Uma publicação do WWF, em parceria com a Embrapa e ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza. A publicação homenageia 14 pequenos agricultores que através de seus conhecimentos tradicionais, implantaram em suas áreas uma nova concepção de produção, se alinhando a sustentabilidade, dentre eles o Senhor Amandio Micolino. (Acesse o link da publicação no verso, arquivo em PDF - disponível para download).
                             Capa da Publicação - Agricultores que Cultivam Árvores do Cerrado.

A restauração ecológica da Fazenda São Roque foi feita por semeadura direta a lanço e sem adubo. Em cada plantio foi empregado um procedimento distinto. Porém em todos foi empregada a técnica da “muvuca” de sementes do Cerrado, que consiste em uma mistura de sementes de espécies arbóreas e de adubação verde. Uma média de 30 sementes por metro quadrado compõe a muvuca, podendo gerar de 5 a 6 mudas por metro quadrado o que significa a germinação e o estabelecimento de 60 mil plântulas por hectare, após um ano de plantio.

"Muvuca" - Mistura de sementes e fertilizantes

Seu Amandio observa que “as árvores estando juntas [mais adensadas], elas se afinam e crescem verticalmente, mas se o plantio é ralo, elas se espalham e engrossam”.

A densidade do plantio com a muvuca de sementes é alta porque busca imitar a regeneração natural de uma floresta, em que a densidade de sementes e plantas novas é alta no início e decresce com o tempo. Desta forma essa técnica prevê que morram muitas plântulas no estágio inicial, mas que são importantes para impedir que plantas não desejadas ocupem a área, e que a estrutura da vegetação siga caminho similar a clareiras em florestas naturais.


Seu Amandio compartilha este raciocínio, pois a redução da densidade já é observada por ele nos plantios mais antigos. “Tem muitas árvores originadas da muvuca que morrem com o tempo e o plantio fica mais ralo”. Outro aspecto que o agricultor avalia que a semeadura direta é preferível ao plantio com mudas, “Porque a planta de semente aguenta mais a seca, quando ela é plantada de muda, ela leva uns 30 dias pra começar a criar raízes, e se estiver meio machucada é quase certo que não aguenta a seca. E a de semente ela nasce e o pião [a raiz] dela já desce e pega mais umidade, enquanto a muda fica mais por cima, então a muda morre mais fácil que a semente”.

Quanto a melhor época para a realização do plantio seu Amandio diz: "é sempre no mês de Chuvas, no caso de Canarana, em novembro, época que melhor chove na região”.  


Ao longo do período que realizou a semeadura direta de árvores, Seu Amandio constatou que a eliminação da braquiária foi essencial para o sucesso do plantio. Em seu primeiro plantio, em 2008, teve somente uma gradagem para preparo do solo. “Aqui a gente plantou a muvuca de sementes depois que gradeou a braquiária, mas não utilizou nenhum herbicida antes de plantar”. então a braquiária voltou com força, e tivemos que usar o secante [herbicida] depois que já tínhamos plantado as sementes.

Com a experiência adquirida no primeiro plantio, em 2009 foi feito um plantio em dois hectares de pastagem, com semeadura feita por um calcareador tipo Vincon.  “Nesta segunda área além de optar, pela mecanização do plantio, o agricultor realizou um procedimento prévio a esta etapa, que foi a aplicação inicial de herbicida na braquiária, a fim de eliminá-la”. Aqui foi usado o secante antes de plantar. Aí a braquiária não veio e não foi necessário passar mais veneno depois de plantado. Mas isso tem que fazer antes do plantio. eliminar a braquiária, pra depois preparar a terra para o plantio”.

Aperfeiçoando a técnica na área plantada em 2010, o gado foi colocado permanentemente durante os dois anos anteriores ao plantio, pois se “deixar o gado pastando por uns dois anos, ele não deixa a braquiária dar sementes. Daí quando ela começa a brotar, quando estiver bem brotada, passa um secante e acaba com 90% da braquiária”. Então, sem o capim e sem o gado, realiza-se o plantio mecanizado da muvuca de sementes com o auxílio do calcareador Vincon. Sob este manejo, o estabelecimento da braquiária é baixo havendo necessidade de capinas esporádica para eliminar possíveis touceiras.

Como pecuarista, seu Amandio conhece como cultivar as braquiárias e, portanto conhece como eliminá-las, quando se pretende reestabelecer uma floresta. Ele considera que, das braquiárias “o braquiarão e o decumes são fáceis de controlar, mas a rosiense não, porque depois de cinco, seis anos enterradas no solo, suas sementes ainda germinam”.

Para seu Amandio, pai de seis filhos, cada visita que ele recebe hoje em sua fazenda, com o objetivo de conhecer as técnicas ali aplicadas, ele se renova, e o maior orgulho desse agricultor é ter modificado sua forma de pensar e agir em relação à natureza. Em suas palavras, “É hora do homem começar a preservar e recuperar a natureza, se não quiser sofrer por mais tempo”. 


Apoiadores: ISA- Instituto Socioambiental - Elaborou o projeto de recuperação da vegetação e executou em conjunto com o agricultor, além do acompanhamento técnico.

Fontes:

- Amandio Micolino - Em Entrevista

Com Informações:

- Publicação: “Agricultores que cultivam árvores no Cerrado” - WWF 2014 - em parceria com Embrapa - Recursos Genéticos e Biotecnologia/ ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza.

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