Discorrendo entre os autores Hannah Arendt e Yuval Harari — um ensaio sobre a alma, o poder e o reencontro com o sensível
Dinalva Heloiza
Há milênios caminhamos sobre as ruínas e os brilhos de nós mesmos. De tempos em tempos, a humanidade se reinventa — mas quase sempre tropeçando na própria sombra. Inventamos o fogo, a roda, a máquina, a rede… e, com cada invenção, criamos também uma nova forma de domínio.
Eis o paradoxo do humano: avançamos em tudo, menos em ternura. Hannah Arendt olhou esse abismo de frente.
Viu que o mal não precisa de monstros para existir — basta a ausência de pensamento. Ela percebeu que o horror pode nascer do cotidiano, da obediência cega, da burocracia sem alma.
Chamou isso de a banalidade do mal — essa quietude do espírito que permite o inaceitável.
Em suas páginas, o humano aparece dividido: entre o dever e a consciência, entre o “eu” que obedece e o “nós” que cala.
Yuval Harari, de outro tempo, continua essa conversa com o futuro. Ele diz que nos tornamos deuses — mas sem sabedoria. Em Homo Deus, fala de um mundo onde a biotecnologia e os algoritmos se tornam oráculos, e onde o humano corre o risco de se tornar obsoleto.
Mas o verdadeiro perigo, ele avisa, não é a máquina pensar — é o humano parar de pensar.
Em 21 Lições para o Século 21, Harari clama por lucidez em meio ao ruído: pensar criticamente é o último ato de liberdade.
E entre Arendt e Harari, o que há é o espelho do tempo: a prova de que os problemas da humanidade não mudaram — apenas suas vestimentas.
O poder que silencia o feminino
O poder, desde sempre, usou voz grave e gestos largos. Falou em nome de Deus, da lei, da ordem, da razão — sempre de cima para baixo, quase nunca de dentro para fora. Foi um poder masculino — não apenas no corpo, mas no símbolo: vertical, autoritário, competitivo. E nesse domínio, a mulher — e tudo o que nela se espelha de sensível, de múltiplo, de circular — foi sendo empurrada para as bordas.
Mas o feminino — esse princípio de cuidado, de intuição, de comunhão — nunca desapareceu. Ele se recolheu nas margens, nos quintais, nas vozes caladas das mães, nas cartas não enviadas, nas curas silenciosas. E hoje, ele volta. Não como revanche, mas como restituição do equilíbrio. Porque um mundo feito só de razão morre de frio, e um mundo feito só de poder morre por si mesmo.
Arendt, mesmo em meio ao ambiente árido da política, já intuía isso: pensar é um ato de resistência — e resistir é, antes de tudo, um gesto de amor ao mundo. E Harari confirma: toda estrutura de poder é uma ficção coletiva. O patriarcado, a economia, o lucro, o sucesso — tudo só existe porque acreditamos.
E, se podemos acreditar em ficções que oprimem, também podemos nos calcar nas verdades que libertam.
Um chamado a reconexão, ser humano
Talvez o nosso tempo seja o mais decisivo de todos. Não porque tenhamos chegado ao fim — mas porque chegamos ao limite. O limite da indiferença, do ruído, da separação.
E é desse limite que pode nascer o recomeço.
A reconexão da qual discorro não é utopia — é urgência. É o retorno à presença, ao gesto, ao olhar que vê e não apenas observa. É devolver alma ao que o mundo transformou em produto.
É resgatar o humano antes que o humano se perca de vez nas engrenagens que criou.
A ética precisa voltar a caminhar ao lado da estética. A beleza precisa ser também justiça,
e a justiça precisa ser também beleza. Porque a vida só floresce onde há encontro.
Tenho visto o mundo se acelerar, e a alma a se cansar. Mas continuo acreditando. Porque entre o cinza e o caos, ainda há mãos que se tocam, palavras que curam, e um resto de luz que insiste em ficar.
Certamente a maior revolução não seja tecnológica, nem política. Creio que a verdadeira revolução seja nos conectarmos ao humano, com todos os princípios e valores que essa condição nos permite, sem guerras, sem invadir o outro, sem lhe tomar a sua individualidade, e em sociedade, sem lhe usurpar sua soberania!




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