Dinalva Heloiza
Entre a informação que recebemos e a escolha que fazemos existe uma responsabilidade que nenhuma tecnologia, ideologia ou grupo pode assumir por nós: a responsabilidade sobre aquilo que escolhemos acreditar.
Vivemos em uma era de informações que nos bombardeiam por todos os lados, mas isso não significa necessariamente que vivamos na era do conhecimento. Nunca tivemos tantos meios para pesquisar, comparar versões, consultar documentos, ouvir especialistas, confrontar argumentos e verificar uma informação. E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão fácil simplesmente acreditar.
Recebemos uma mensagem. Compartilhamos. Assistimos a um vídeo. Acreditamos. Um influenciador afirma alguma coisa. Repetimos.
E, muitas vezes, tudo isso acontece sem a pergunta mais simples e talvez a mais importante que um ser humano pode fazer:
Seria isso, verdade?
- Quando deixamos de pensar, a democracia começa a morrer!
Há momentos na história de uma nação em que o ato de votar não é apenas escolher entre nomes, partidos ou programas de governo. Há momentos em que o próprio ato de escolher passa a exigir do cidadão algo muito maior: a capacidade de pensar criticamente.
E creio que o Brasil esteja vivendo um desses momentos.
Estamos a poucos dias para o primeiro turno das eleições de 2026, que acontece em 04 de outubro, quando mais de 158 milhões de brasileiras e brasileiros estarão aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados, federais e estaduais.
Não estamos, portanto, diante de uma eleição qualquer.
Estamos diante de uma escolha que acontecerá em um país profundamente polarizado, com o agravante de um ambiente internacional marcado por disputas geopolíticas, um crescimento volumoso de movimentos nacionalistas e autoritários, intervenções arbitrárias do governo dos EUA em grande parte da geopolítica internacional e nacional, guerras de informação, pressão econômica do mercado financeiro, e uma crescente dificuldade de boa parte da sociedade brasileira em separar fatos de narrativas.
E é justamente por isso que eu gostaria de apresentar a minha humilde análise, diante de um cenário caótico que se apresenta às vésperas de uma eleição tão importante, e colocar como alicerce dessa análise, antes de tudo, uma palavra que parece simples, mas, que pode ser decisiva para o futuro de uma democracia:
O Ato de Pensar, ou o pensamento.
Não digo aqui do pensamento como mera capacidade de formar uma opinião. Estou dizendo sobre a disposição de investigar fatos, antes de acreditar em recortes, de duvidar antes de formar uma opinião favorável ou dissonante. O pensamento crítico!
Buscar o contraditório antes de transformar uma narrativa em verdade, em reconhecer que podemos estar errados. Mas, sobretudo, em compreender que uma escolha política não termina no momento em que apertamos a tecla verde da urna, ela começa ali.
E começa mesmo muito antes. Começa quando decidimos em quem acreditar. Começa quando decidimos quais fatos, ignorar. Começa quando transformamos uma pessoa em herói ou inimigo sem sequer conhecer suficientemente a história, ou os fatos!
É aqui que me reporto a grande filósofa Hannah Arendt, que cunhou o termo a “banalidade do mal”.
Em 1961, ao observar o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, a filósofa Hannah Arendt se inspirou ali, ao criar o conceito da "banalidade do mal" uma observação que lhe permitiu distinguir que o carrasco nazista se parecia mais com um burocrata medíocre e comum, em vez de um monstro sádico.
Ao analisar esse julgamento, Arendt não encontrou simplesmente o monstro que talvez esperasse encontrar. Encontrou um homem aparentemente comum e, sobretudo, encontrou uma questão perturbadora: a possibilidade de alguém participar de uma engrenagem tão terrível sem desenvolver uma reflexão suficientemente profunda sobre aquilo que estava fazendo.
A banalidade do mal não significava que o mal fosse pequeno. Significava que atos terríveis poderiam ser praticados por pessoas que deixaram de exercer plenamente sua capacidade de pensar e julgar.
E o ato de votar nos dias de hoje, se tornou inexoravelmente um ato necessário em não banalizar o mal.
O que acontece com uma democracia quando seus cidadãos deixam de pensar?
Por outro lado, o que acontece quando a política deixa de ser um espaço de ideias e passa a funcionar como uma guerra entre torcidas?
Ou mesmo quando deixamos de aplicar aos nossos próprios líderes o mesmo critério moral que aplicamos aos adversários?
Talvez seja justamente aí que comece a banalização do pensamento. E uma sociedade que banaliza o pensamento pode, pouco a pouco, banalizar também a própria democracia.
Por outro lado, a própria história do Brasil nos apresenta um fato que podemos denominar como a “perversão do juízo ou o oposto de banalização do mal”, conhecido de alguns e relacionado ao nosso grande patrono da educação, Paulo Freire.
Paulo Freire compreendeu, décadas atrás, que alfabetizar não era apenas ensinar alguém a decifrar letras. Era também ensinar alguém a compreender o mundo.
Em 1963, ele criou um método de alfabetização que ficou mundialmente famoso e foi desenvolvido na cidade de Angicos (RN), onde Freire e sua equipe conseguiram alfabetizar 300 trabalhadores rurais em apenas 40 horas.
O sucesso foi tão grande que o governo de João Goulart decidiu expandi-lo nacionalmente, mas esse plano foi interrompido pelo golpe militar de 1964.
Mas o mais incrível é que justamente essa ação revolucionária em alfabetização, e a experiência com trabalhadores pobres, agricultores e adultos historicamente excluídos da educação ganhou uma dimensão política enorme na época.
Paulo Freire foi preso pela ditadura militar em 1964 sob a acusação de subversão e de promover uma suposta "doutrinação comunista" e marxista por meio de seu método de alfabetização de adultos.
O regime militar considerava que o método de Freire — que ensinava a ler e a escrever a partir da realidade e do pensamento crítico dos alunos — politizava as classes populares no campo e na cidade.
Os militares temiam que a alfabetização rápida de adultos permitisse que um grande número de pessoas pobres e analfabetas passasse a ter direito ao voto, alterando a força política tradicional e desafiando o poder de elites locais.
No contexto da Guerra Fria, o governo ditatorial rotulou publicamente o educador como um "subversivo" e "inimigo do povo brasileiro", interrompendo seu plano nacional de alfabetização, e prendendo-o por mais de 70 dias, logo após foi forçado ao exílio.
O que a história de Freire nos ensina?
Especialmente, o fato de que uma pessoa que aprende a perguntar se torna muito mais distante da manipulação. O que certamente, creio eu, seja a habilidade que mais precisamos recuperar.
Hoje somos uma sociedade majoritariamente alfabetizada, conectada e inundada de informações. Mas informação não é conhecimento.
E conhecimento não é pensamento crítico. Podemos ter milhares de notícias disponíveis e continuar acreditando em uma mentira. Podemos assistir a centenas de vídeos políticos e continuar sem conhecer um único documento original.
Podemos acompanhar diariamente um líder político e jamais perguntar se aquilo que ele afirma corresponde aos fatos. Isso é particularmente perigoso quando estamos diante de uma eleição.
E aqui chegamos ao ponto mais delicado da nossa história atual.
Flávio Bolsonaro é hoje um dos principais nomes da oposição na disputa presidencial. As pesquisas recentes mostram uma eleição acirrada, com Lula e Flávio aparecendo em posições próximas em diferentes levantamentos.
Mas há um fato que merece ser conhecido pelo eleitor, independentemente de sua preferência política: Flávio Bolsonaro está sendo investigado pelo Supremo Tribunal Federal em um inquérito relacionado ao financiamento do filme “Dark Horse”, associado à família Bolsonaro e a operações envolvendo o Banco Master.
A investigação foi aberta em julho, depois que o ministro André Mendonça deu aval ao pedido da PF, e veio à tona na sexta-feira (11). Em manifestação, a PGR afirmou haver "indícios consistentes" das suspeitas levantadas e não se opôs à abertura da investigação envolvendo o senador no caso do filme Dark Horse', sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Outro fato, não menos importante e que carrega uma periculosidade geopolítica nisso tudo, é a ligação do candidato à presidência Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo Bolsonaro, à um contexto de narrativas fabricadas por eles junto ao governo americano contra as instituições brasileiras, o que provocou uma interferência de Donald Trump, de todas as formas possíveis na economia brasileira através de tarifaço, interferências arbitrárias e sanções contra membros da política e ministros do STF, alimentadas pela família Bolsonaro junto ao governo americano.
Estes são fatos! Ou seja, ocorreram, e continuam a ocorrer!
Mas ainda tem algo mais, e muito corrosivo em meio a todo esse emaranhado.
A Revista Pública e o portal Amado Mundo publicaram nessa semana um artigo intitulado – “Financiamento de grupo ligado a J. D. Vance pode ser o maior escândalo da eleição” assinado pela jornalista Natália Viana.
As notícias recentes de setembro de 2026 confirmam a existência de uma suspeita que recai sobre o candidato Flávio Bolsonaro, sobre um plano estratégico envolvendo terras raras e articulação com redes norte-americanas, que estariam financiando sua campanha. Até o momento, as denúncias de financiamento ilegal de campanha não foram comprovadas publicamente, e os citados negam as irregularidades.
Mas, as evidências são fortíssimas e os principais temas e veículos de imprensa que abordam o caso estão divididos em três frentes:
1) O Documento de Exploração de Terras Raras ("Prosperity Partnership")
Foi revelado um memorando estratégico de 22 páginas que traz o selo de campanha "Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign". O plano detalha uma aliança com os Estados Unidos para a exploração, processamento e industrialização de minerais críticos e terras raras no Brasil em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, projetando atrair até US$ 100 bilhões em investimentos.
Veículos que abordaram: O plano foi revelado inicialmente pelo portal Amado Mundo e repercutido amplamente inclusive pela A Pública e outros meios de comunicação.
Posicionamento do Autor: O candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo Partido Novo, André Marinho, confirmou que é mesmo dele a autoria do estudo, mas declarou que o material foi feito de forma independente e não possui vínculo oficial com a campanha de Flávio Bolsonaro.
2) A Suspeita de Elo com a Rede "Rockbridge Network"
As reportagens apontam que o empresário Pedro Sang, articulador da rede de financiadores conservadores dos EUA chamada Rockbridge Network (cofundada pelo vice-presidente americano J.D. Vance), estaria atuando nos bastidores do comitê de campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo. A suspeita levantada por opositores é que a facilitação de negócios de minerais estratégicos serviria de contrapartida para apoio político ou material de grupos americanos.
Veículos que abordaram: O assunto foi esmiuçado pela Agência Pública, pelo portal Opera Mundi, pelo Nexo Jornal e pela TVT News, CNN, entre outros.
3) Acionamento do STF e do TSE por Crime Eleitoral
Como a legislação eleitoral brasileira proíbe expressamente o recebimento direto ou indireto de qualquer tipo de recurso, doação ou publicidade vindos de fontes estrangeiras, a oposição formalizou denúncias para apurar o caso. O deputado federal Lindbergh Farias e o Partido dos Trabalhadores (PT) entraram com pedidos de investigação junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Veículos que abordaram: A movimentação jurídica foi noticiada pela [CNN Brasil](https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/pt-aciona-stf-para-apurar-suposto custeio-estrangeiro-a-campanha-de-flavio/ "Flávio Bolsonaro financiamento EUA terras raras"), pelo Poder360 e pelo Brasil de Fato.
O candidato Flávio Bolsonaro negou ter recebido ajuda financeira do governo ou de entidades dos Estados Unidos, mas infelizmente sabemos que essa é sempre a primeira posição dele ao ser confrontado com suspeições, e essa não é a primeira, e nem a segunda, só gostaríamos que fosse a última.
Outro aspecto que se faz imprescindível nos atentarmos. Recentemente, fomos testemunhas de episódios complexos envolvendo membros do Supremo Tribunal Federal (STF), junto ao caso Master. É inegável que o momento escolhido para a exposição dessas tensões foi estratégico e visivelmente instrumentalizado por atores com interesse políticos para fragilizar o ecossistema democrático às vésperas do pleito. Não discuto aqui a inocência de membros ou sua culpa. Mas a manipulação destas informações, justamente em datas tão estratégicas.
No entanto, há uma fronteira clara que a sociedade brasileira precisa discernir: disputas, condutas ou investigações de caráter estritamente pessoal envolvendo ministros não podem, sob pretexto algum, colocar em xeque a soberania jurídica do STF.
O Supremo não se confunde com os indivíduos que temporariamente ocupam suas cadeiras. Como guardião máximo da Constituição, o STF permanece como o pilar indispensável para a manutenção do Estado Democrático de Direito e o escudo definitivo na defesa da soberania nacional. Fragilizar a Corte Suprema é pavimentar o caminho para a anomia e o arbítrio.
Diante da possibilidade de avanço da extrema-direita no Brasil nestas eleições, os riscos de retrocessos institucionais e de erosão das garantias fundamentais tornam-se um alerta central para o futuro da nossa democracia. Contudo, mesmo sob a névoa das manipulações digitais e do acirramento ideológico, há razões para manter o otimismo na maturidade cívica do país.
A força da nossa república reside, em última análise, na capacidade de discernimento de toda a nossa gente. A sociedade já demonstrou em momentos críticos que sabe diferenciar o debate político legítimo das tentativas de sabotagem institucional.
E é com essa confiança na lucidez de nossa gente que devemos enfrentar toda e qualquer manipulação que queira se instaurar no horizonte democrático, convictos de que a defesa de nossa soberania, de nossa cidadania, e do estado democrático de direito estão alinhados com a nossa civilidade democrática e de todas as nossas instituições federais, o que continua sendo o nosso maior compromisso em comum.

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