sexta-feira, agosto 14, 2026

Quando a ignorância vira orgulho: o século em que não saber passou a ser virtude!

 

Dinalva Heloiza

Uma reflexão a partir da obra - O Século dos Imbecis – do autor Valter Hugo Mãe, sobre a normalização da ignorância, a erosão do pensamento crítico e uma sociedade que parece ter perdido a vergonha de não querer saber

Há algo profundamente perturbador no nosso tempo: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, parece haver uma resistência crescente ao conhecimento.

Temos bibliotecas inteiras dentro de um telefone. Podemos consultar pesquisas científicas, livros, universidades, jornais, arquivos históricos, museus e especialistas em poucos segundos. A humanidade jamais dispôs de tamanha capacidade de acessar fatos verdadeiros e informação verídica.

E, ainda assim, prospera uma espécie de orgulho em não saber. Não se trata mais apenas de desconhecer determinado assunto. Afinal, ninguém sabe tudo. A ignorância, nesse sentido, é parte inevitável da condição humana.

O problema começa quando o desconhecimento deixa de provocar curiosidade e passa a produzir arrogância; quando admitir “não sei” é considerado fraqueza, enquanto afirmar qualquer coisa com absoluta convicção passa a ser interpretado como força.

É justamente nesse terreno que se instala O Século dos Imbecis, romance de Valter Hugo Mãe publicado em 2026 pela Porto Editora. Escritor português Valter Hugo, é também editor, artista plástico, apresentador de televisão e cantor. E sua obra parte de uma alegoria aparentemente absurda para falar de uma realidade bastante concreta: uma sociedade fascinada pela própria superficialidade.

Segundo a apresentação da editora, o romance nasce da constatação de que atravessamos o século da informação, mas continuamos resistindo ao conhecimento. No centro da narrativa está Agilulfo, um marquês que se torna mais lúcido quando sobe a montanha e progressivamente mais estúpido quando desce. Ao seu redor, uma pequena vila constrói expectativas, crenças, julgamentos e interesses. (Porto Editora)

A metáfora é quase cruel de tão atual.

O problema não é ser ignorante

Existe uma diferença fundamental entre ser ignorante sobre alguma coisa e glorificar a ignorância. A primeira é inevitável.

Somos todos ignorantes em relação a uma quantidade imensa de assuntos. Não saber astronomia não torna alguém inferior. Não conhecer filosofia não significa incapacidade intelectual. Não compreender economia, medicina, tecnologia ou história é perfeitamente humano.

O conhecimento é justamente a consciência de que não sabemos tudo. O perigo começa quando essa consciência desaparece.

Quando alguém diz “não sei” e procura aprender, existe ali uma possibilidade de crescimento. Quando alguém diz “não sei e não quero saber”, estamos diante de outra coisa. E quando transforma o “não saber” em motivo de orgulho — atacando quem estudou, pesquisou ou adquiriu conhecimento — o fenômeno deixa de ser individual e passa a adquirir uma dimensão social.

É essa transformação que torna a ignorância politicamente perigosa. A ignorância pode ser circunstancial. A glorificação da ignorância é cultural. E culturas podem ser manipuladas.

O século da informação e a crise do conhecimento

Talvez uma das maiores ironias da contemporaneidade seja esta: conseguimos democratizar extraordinariamente o acesso à informação, mas não conseguimos democratizar na mesma proporção a capacidade de interpretá-la, não democratizamos o pensamento crítico, ou seja, não democratizamos a capacidade de analisar, interpretar e avaliar informações e argumentos de forma lógica e objetiva. Em vez de aceitar dados ou opiniões de maneira automática, ele envolve questionar premissas, buscar evidências sólidas e identificar falhas no raciocínio antes de formar um julgamento.

Informação não é conhecimento, a informação é um conjunto de dados organizados e com contexto.

Conhecimento não é compreensão, conhecimento é a capacidade de entender, e interpretar a informação de forma prática e crítica. Ter acesso a fatos não significa saber como aplicá-los. E compreensão não é necessariamente sabedoria. Podemos receber milhares de informações por dia e continuar incapazes de compreender o mundo. Essa diferença é essencial para entender a crítica de Valter Hugo Mãe.

O autor observa uma época em que as pessoas estão cercadas de informações, mas frequentemente não transformam aquilo que recebem em reflexão, consciência ou comportamento. Em entrevista e apresentações do livro, Mãe tem insistido justamente nesse paradoxo: a abundância de informação não produziu automaticamente uma sociedade mais esclarecida. (VEJA)

É como possuir uma biblioteca gigantesca e nunca abrir um livro. Ou pior: abrir apenas aqueles que confirmam aquilo que já pensamos.

A ignorância ganhou palco

Durante muito tempo, a ignorância era algo que as pessoas procuravam esconder. Hoje, em determinados ambientes, ela pode produzir audiência. A lógica das redes sociais alterou profundamente o valor daquilo que é dito publicamente.

Uma afirmação complexa exige contexto, tempo, conhecimento e muitas vezes prudência.

Uma opinião simplista exige apenas confiança. A mentira pode ser mais rápida que a investigação. A indignação pode ser mais compartilhável que a ponderação. O escândalo pode ser mais rentável que a explicação.

E a certeza absoluta costuma ser muito mais sedutora do que a dúvida. É nesse ambiente que a ignorância encontra um palco perfeito.

Não porque as pessoas tenham necessariamente se tornado menos inteligentes, mas porque determinados mecanismos de comunicação recompensam a simplificação, a provocação e a certeza performática.

Valter Hugo Mãe relaciona a própria dinâmica contemporânea a esse “circuito de redes sociais”, no qual questões complexas acabam reduzidas a opiniões rápidas, sem reflexão ou ponderação. (VEJA)

O problema, portanto, não está apenas no indivíduo. Está também no ambiente que construímos.

Quando “eu acho” passa a valer mais do que “eu sei”

Talvez uma das maiores confusões intelectuais do nosso tempo seja a transformação da opinião pessoal em equivalente da realidade. “Eu acho” passou a disputar espaço com “há evidências”.

“Ouvi dizer” passou a disputar espaço com pesquisa. “Vi num vídeo” passou a disputar espaço com conhecimento acumulado por décadas. E a experiência individual, embora legítima, passou a ser usada muitas vezes como argumento absoluto contra dados, estudos e evidências.

A democracia depende do direito à opinião. Mas uma sociedade democrática não pode sobreviver se abandonar completamente a ideia de realidade verificável. Podemos discordar sobre políticas públicas. Podemos discordar sobre prioridades econômicas.

Podemos ter diferentes interpretações sobre acontecimentos históricos. Mas existe uma diferença entre discordar de uma interpretação e outra, que é recusar os fatos que tornam qualquer interpretação possível.

Quando essa distinção desaparece, o debate público deixa de ser uma disputa entre argumentos e transforma-se em uma disputa entre crenças. E quem grita mais alto parece vencer.

A estupidez não está necessariamente na falta de inteligência

Aqui está uma das questões mais provocadoras da obra. A palavra “imbecil”, no universo de Valter Hugo Mãe, não deve ser compreendida simplesmente como sinônimo de pessoa pouco inteligente.

A estupidez pode existir mesmo onde existe inteligência. Uma pessoa inteligente pode escolher acreditar naquilo que lhe convém. Pode rejeitar evidências por orgulho. Pode manipular informações. Pode utilizar conhecimento para justificar preconceitos. Pode saber muito e compreender pouco.

A inteligência, portanto, não é uma vacina automática contra a estupidez. Talvez a verdadeira oposição à estupidez seja outra coisa: a disposição para rever aquilo que pensamos saber.

Pensar exige humildade. E talvez seja justamente a humildade intelectual uma das virtudes mais ameaçadas do nosso tempo.

O algoritmo e a fabricação das certezas

As redes sociais trouxeram uma transformação silenciosa: deixamos de procurar apenas informação e passamos a receber aquilo que tende a nos manter conectados. Isso cria ambientes nos quais nossas crenças são continuamente reforçadas.

A pessoa vê mais daquilo em que acredita. Compartilha aquilo que confirma sua visão de mundo. Recebe aprovação daqueles que pensam parecido. E, pouco a pouco, pode começar a acreditar que sua percepção particular representa a realidade inteira.

A ignorância deixa então de ser apenas ausência de conhecimento. Ela passa a ser um sistema fechado de confirmação.

É nesse ponto que o pensamento crítico se torna indispensável. Pensar criticamente não significa desconfiar de tudo. Significa saber perguntar:

Quem está dizendo? Com base em quê? Qual é a evidência? Existe outra interpretação? O que poderia provar que estou errado?

Essas perguntas parecem simples. Mas são revolucionárias em uma época dominada pela velocidade.

O espetáculo da certeza

Há também um componente psicológico nessa história. A dúvida incomoda. A complexidade cansa. A incerteza assusta. A certeza oferece conforto.

É muito mais fácil acreditar que existe uma explicação simples para um problema complexo do que aceitar que determinados fenômenos exigem anos de estudo, múltiplas perspectivas e respostas provisórias.

É por isso que discursos simplistas encontram terreno fértil. Eles oferecem uma sensação imediata de compreensão. O mundo fica dividido entre bons e maus, certos e errados, nós e eles. Tudo parece resolvido.

Só existe um pequeno problema: a realidade não é obrigada a ser simples para nos deixar confortáveis.

A ignorância como instrumento de poder

É aqui que a discussão ganha uma dimensão ainda mais séria. Uma sociedade que despreza o conhecimento torna-se mais vulnerável à manipulação.

Se ciência pode ser tratada como mera opinião, qualquer mentira pode adquirir aparência de verdade. Se jornalismo é automaticamente descartado como “opinião”, qualquer boato pode ocupar o mesmo espaço de uma investigação.

Se história é tratada como narrativa descartável, torna-se mais fácil reconstruir o passado de acordo com interesses do presente. Se educação é desvalorizada, torna-se mais fácil convencer pessoas de que conhecimento é privilégio de uma elite.

E se pensamento crítico passa a ser confundido com arrogância intelectual, a sociedade perde uma das suas principais ferramentas de defesa. A ignorância, nesse contexto, deixa de ser apenas um problema educacional. Ela se transforma em uma questão de poder.

Quem controla aquilo que as pessoas acreditam saber pode influenciar aquilo que elas escolhem, consomem, defendem e rejeitam.

A democracia também pode morrer de preguiça intelectual

Existe uma relação profunda entre conhecimento e democracia. Uma democracia não depende apenas de eleições. Depende de cidadãos capazes de avaliar discursos, reconhecer manipulações, comparar propostas, compreender consequências e questionar autoridades.

Quando o debate público se transforma em espetáculo permanente, a política pode deixar de ser uma disputa entre projetos de sociedade e transformar-se em competição por atenção.

Nesse cenário, a indignação vale mais do que a argumentação. A viralização vale mais do que a verificação. A caricatura vale mais do que a complexidade. E o adversário deixa de ser alguém com quem discordamos para tornar-se alguém que precisamos destruir simbolicamente. A política passa então a funcionar como extensão das redes sociais.

E talvez seja exatamente isso que torna a alegoria de O Século dos Imbecis tão contemporânea: a comunidade não apenas observa Agilulfo; ela participa da construção daquilo que ele representa.

E existe uma saída?

Talvez a grande pergunta deixada pelo romance não seja simplesmente se estamos vivendo “o século dos imbecis”. A pergunta mais incômoda é:

- O que estamos fazendo para não viver nele?

A resposta não pode ser simplesmente atacar os ignorantes. Isso seria uma contradição. Desprezar quem sabe menos não produz uma sociedade mais inteligente.

Pelo contrário. Se existe algo profundamente democrático no conhecimento, é a possibilidade de que ele seja compartilhado. A saída passa por recuperar o prazer de aprender.

Pela valorização dos professores. Pela defesa da ciência. Pela leitura. Pelo jornalismo responsável. Pela cultura. Pela capacidade de conversar com quem pensa diferente. Pela disposição de admitir um erro.

E, principalmente, pela recuperação de uma frase que deveria ser uma das mais respeitadas da vida pública: “- Eu não sei.”

Porque dizer “eu não sei” não é uma derrota. É o primeiro passo para aprender.

Talvez o verdadeiro perigo seja ter vergonha de parecer inteligente

Há uma inversão cultural particularmente preocupante acontecendo em alguns espaços contemporâneos.

Demonstrar conhecimento pode provocar desconfiança. Ler demais pode ser tratado como pedantismo. Usar palavras mais complexas pode ser motivo de deboche. Citar pesquisas pode ser interpretado como tentativa de superioridade. Enquanto isso, a ignorância ostensiva pode produzir identificação.

É como se uma parte da sociedade tivesse decidido que parecer informado é suspeito, enquanto parecer desinformado é autêntico. Esse fenômeno merece atenção.

Porque uma sociedade não precisa obrigar ninguém a ser ignorante para se tornar ignorante. Basta fazer com que o conhecimento deixe de ser socialmente admirado.

As mulheres e a possibilidade de mudança

Há ainda uma dimensão importante na obra que merece ser observada. As mulheres do vilarejo ocupam um papel decisivo na transformação da história. A própria apresentação do livro destaca sua força e sua capacidade de desafiar convenções, enquanto outras leituras da obra apontam para uma oposição entre a elite que apenas contempla e aqueles que efetivamente fazem. (Porto Editora)

Isso acrescenta outra camada à alegoria.

Talvez o futuro não esteja necessariamente nas mãos daqueles que falam mais. Talvez esteja nas mãos daqueles que fazem. Daqueles que cuidam. Daqueles que educam. Daqueles que trabalham. Daqueles que observam silenciosamente, acumulam experiência e, em determinado momento, decidem mudar o curso das coisas.

Existe uma crítica poderosa aí à sociedade do espetáculo: enquanto alguns personagens ocupam o centro da cena, outros sustentam silenciosamente a possibilidade de transformação.

Não precisamos saber tudo. Precisamos continuar querendo saber.

Essa talvez seja a diferença fundamental entre ignorância e inteligência. Não saber é humano. Não querer saber é uma escolha. E transformar o não saber em orgulho pode se tornar um projeto coletivo.

O Século dos Imbecis é particularmente incômodo porque não permite que o leitor permaneça confortavelmente do lado de fora. É fácil olhar para a palavra “imbecis” e imaginar que ela descreve os outros.

Os ignorantes são sempre os outros. Os manipulados são sempre os outros. Os fanáticos são sempre os outros. Nós somos os esclarecidos.

Mas a literatura de Valter Hugo Mãe parece colocar um espelho diante do leitor. A montanha está ali. E a descida também. Subir significa esforço, conhecimento, reflexão, desconforto.

Descer é mais fácil. É mais rápido. E, muitas vezes, muito mais divertido. A questão é saber quantas vezes estamos dispostos a fazer o esforço da subida.

O século dos imbecis ou o século da escolha?

Talvez o título do romance não seja apenas uma sentença. Talvez seja uma provocação. 

Porque se estamos realmente vivendo uma época em que a ignorância é celebrada, ainda existe uma escolha. Podemos continuar premiando a superficialidade.

Podemos continuar confundindo opinião com conhecimento. Podemos continuar transformando redes sociais em tribunais da verdade. Podemos continuar tratando a dúvida como fraqueza e a arrogância como inteligência.

Ou podemos reconstruir uma cultura na qual aprender volte a ser motivo de orgulho. Uma cultura na qual mudar de opinião diante de uma evidência seja sinal de maturidade, não de derrota.

Uma cultura na qual o conhecimento não seja utilizado para humilhar quem sabe menos, mas para ampliar aquilo que todos podem saber. Uma cultura na qual a curiosidade seja mais forte do que a certeza.

Porque talvez o grande desafio deste século não seja combater pessoas “imbecis”. Se fizermos isso, estaremos apenas reproduzindo a mesma lógica de superioridade que pretendemos criticar.

O desafio é combater a glorificação da ignorância. É impedir que o desconhecimento seja transformado em identidade política, produto de entretenimento ou instrumento de manipulação. É preservar a capacidade humana de perguntar.

De duvidar. De investigar. De aprender. De mudar.

No fundo, talvez seja isso que Valter Hugo Mãe esteja nos dizendo através de sua fábula: não existe nada de vergonhoso em não saber. Vergonhoso é transformar o não saber em orgulho.

Mais grave ainda é transformar esse orgulho em regra coletiva.

Porque quando uma sociedade começa a rir de quem estuda, desconfiar de quem pesquisa, desprezar quem pensa e admirar quem fala com absoluta certeza sobre aquilo que desconhece, ela não está apenas perdendo conhecimento. Está perdendo a capacidade de distinguir o conhecimento da ignorância.

E quando uma sociedade perde essa capacidade, qualquer coisa pode ocupar o lugar da verdade.  É aí que começa, verdadeiramente, o perigo.

Talvez ainda haja uma montanha para subir. E talvez a literatura seja uma das formas mais bonitas de nos lembrar que precisamos fazê-lo.

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