Dinalva Heloiza
Uma reflexão a partir da obra
- O Século dos Imbecis – do autor Valter Hugo Mãe, sobre a normalização
da ignorância, a erosão do pensamento crítico e uma sociedade que parece ter
perdido a vergonha de não querer saber
Temos bibliotecas inteiras dentro
de um telefone. Podemos consultar pesquisas científicas, livros, universidades,
jornais, arquivos históricos, museus e especialistas em poucos segundos. A
humanidade jamais dispôs de tamanha capacidade de acessar fatos verdadeiros e informação
verídica.
E, ainda assim, prospera uma
espécie de orgulho em não saber. Não se trata mais apenas de desconhecer
determinado assunto. Afinal, ninguém sabe tudo. A ignorância, nesse sentido, é
parte inevitável da condição humana.
O problema começa quando o
desconhecimento deixa de provocar curiosidade e passa a produzir arrogância;
quando admitir “não sei” é considerado fraqueza, enquanto afirmar qualquer
coisa com absoluta convicção passa a ser interpretado como força.
É justamente nesse terreno que se instala O Século dos Imbecis, romance de Valter Hugo Mãe publicado em 2026 pela Porto Editora. Escritor português Valter Hugo, é também editor, artista plástico, apresentador de televisão e cantor. E sua obra parte de uma alegoria aparentemente absurda para falar de uma realidade bastante concreta: uma sociedade fascinada pela própria superficialidade.
Segundo a apresentação da
editora, o romance nasce da constatação de que atravessamos o século da
informação, mas continuamos resistindo ao conhecimento. No centro da narrativa
está Agilulfo, um marquês que se torna mais lúcido quando sobe a montanha e progressivamente
mais estúpido quando desce. Ao seu redor, uma pequena vila constrói
expectativas, crenças, julgamentos e interesses. (Porto Editora)
A metáfora é quase cruel de tão
atual.
O problema não é ser ignorante
Somos todos ignorantes em relação
a uma quantidade imensa de assuntos. Não saber astronomia não torna alguém
inferior. Não conhecer filosofia não significa incapacidade intelectual. Não
compreender economia, medicina, tecnologia ou história é perfeitamente humano.
O conhecimento é justamente a
consciência de que não sabemos tudo. O perigo começa quando essa consciência
desaparece.
Quando alguém diz “não sei” e
procura aprender, existe ali uma possibilidade de crescimento. Quando alguém
diz “não sei e não quero saber”, estamos diante de outra coisa. E quando
transforma o “não saber” em motivo de orgulho — atacando quem estudou, pesquisou
ou adquiriu conhecimento — o fenômeno deixa de ser individual e passa a
adquirir uma dimensão social.
É essa transformação que torna a
ignorância politicamente perigosa. A ignorância pode ser circunstancial. A
glorificação da ignorância é cultural. E culturas podem ser manipuladas.
O século da informação e a
crise do conhecimento
Talvez uma das maiores ironias da
contemporaneidade seja esta: conseguimos democratizar extraordinariamente o
acesso à informação, mas não conseguimos democratizar na mesma proporção a
capacidade de interpretá-la, não democratizamos o pensamento crítico, ou seja, não
democratizamos a capacidade de analisar, interpretar e avaliar informações e
argumentos de forma lógica e objetiva. Em vez de aceitar dados ou opiniões de
maneira automática, ele envolve questionar premissas, buscar evidências sólidas
e identificar falhas no raciocínio antes de formar um julgamento.
Informação não é conhecimento, a informação
é um conjunto de dados organizados e com contexto.
Conhecimento não é compreensão, conhecimento
é a capacidade de entender, e interpretar a informação de forma prática e
crítica. Ter acesso a fatos não significa saber como aplicá-los. E compreensão
não é necessariamente sabedoria. Podemos receber milhares de informações por
dia e continuar incapazes de compreender o mundo. Essa diferença é essencial
para entender a crítica de Valter Hugo Mãe.
O autor observa uma época em que
as pessoas estão cercadas de informações, mas frequentemente não transformam
aquilo que recebem em reflexão, consciência ou comportamento. Em entrevista e
apresentações do livro, Mãe tem insistido justamente nesse paradoxo: a
abundância de informação não produziu automaticamente uma sociedade mais
esclarecida. (VEJA)
É como possuir uma biblioteca
gigantesca e nunca abrir um livro. Ou pior: abrir apenas aqueles que confirmam
aquilo que já pensamos.
A ignorância ganhou palco
Durante muito tempo, a ignorância
era algo que as pessoas procuravam esconder. Hoje, em determinados ambientes,
ela pode produzir audiência. A lógica das redes sociais alterou profundamente o
valor daquilo que é dito publicamente.
Uma afirmação complexa exige
contexto, tempo, conhecimento e muitas vezes prudência.
Uma opinião simplista exige
apenas confiança. A mentira pode ser mais rápida que a investigação. A
indignação pode ser mais compartilhável que a ponderação. O escândalo pode ser
mais rentável que a explicação.
E a certeza absoluta costuma ser
muito mais sedutora do que a dúvida. É nesse ambiente que a ignorância encontra
um palco perfeito.
Não porque as pessoas tenham
necessariamente se tornado menos inteligentes, mas porque determinados
mecanismos de comunicação recompensam a simplificação, a provocação e a
certeza performática.
Valter Hugo Mãe relaciona a
própria dinâmica contemporânea a esse “circuito de redes sociais”, no qual
questões complexas acabam reduzidas a opiniões rápidas, sem reflexão ou
ponderação. (VEJA)
O problema, portanto, não está
apenas no indivíduo. Está também no ambiente que construímos.
Quando “eu acho” passa a valer
mais do que “eu sei”
Talvez uma das maiores confusões
intelectuais do nosso tempo seja a transformação da opinião pessoal em
equivalente da realidade. “Eu acho” passou a disputar espaço com “há
evidências”.
“Ouvi dizer” passou a disputar
espaço com pesquisa. “Vi num vídeo” passou a disputar espaço com conhecimento
acumulado por décadas. E a experiência individual, embora legítima, passou a
ser usada muitas vezes como argumento absoluto contra dados, estudos e
evidências.
A democracia depende do direito à
opinião. Mas uma sociedade democrática não pode sobreviver se abandonar
completamente a ideia de realidade verificável. Podemos discordar sobre
políticas públicas. Podemos discordar sobre prioridades econômicas.
Podemos ter diferentes
interpretações sobre acontecimentos históricos. Mas existe uma diferença entre discordar
de uma interpretação e outra, que é recusar os fatos que tornam qualquer
interpretação possível.
Quando essa distinção desaparece,
o debate público deixa de ser uma disputa entre argumentos e transforma-se em
uma disputa entre crenças. E quem grita mais alto parece vencer.
A estupidez não está
necessariamente na falta de inteligência
A estupidez pode existir mesmo
onde existe inteligência. Uma pessoa inteligente pode escolher acreditar
naquilo que lhe convém. Pode rejeitar evidências por orgulho. Pode manipular
informações. Pode utilizar conhecimento para justificar preconceitos. Pode
saber muito e compreender pouco.
A inteligência, portanto, não é
uma vacina automática contra a estupidez. Talvez a verdadeira oposição à
estupidez seja outra coisa: a disposição para rever aquilo que pensamos
saber.
Pensar exige humildade. E talvez
seja justamente a humildade intelectual uma das virtudes mais ameaçadas do
nosso tempo.
O algoritmo e a fabricação das
certezas
As redes sociais trouxeram uma
transformação silenciosa: deixamos de procurar apenas informação e passamos a
receber aquilo que tende a nos manter conectados. Isso cria ambientes nos quais
nossas crenças são continuamente reforçadas.
A pessoa vê mais daquilo em que
acredita. Compartilha aquilo que confirma sua visão de mundo. Recebe aprovação
daqueles que pensam parecido. E, pouco a pouco, pode começar a acreditar que
sua percepção particular representa a realidade inteira.
A ignorância deixa então de ser
apenas ausência de conhecimento. Ela passa a ser um sistema fechado de
confirmação.
É nesse ponto que o pensamento
crítico se torna indispensável. Pensar criticamente não significa desconfiar de
tudo. Significa saber perguntar:
Quem está dizendo? Com base em
quê? Qual é a evidência? Existe outra interpretação? O que poderia provar que
estou errado?
Essas perguntas parecem simples. Mas
são revolucionárias em uma época dominada pela velocidade.
O espetáculo da certeza
Há também um componente
psicológico nessa história. A dúvida incomoda. A complexidade cansa. A
incerteza assusta. A certeza oferece conforto.
É muito mais fácil acreditar que
existe uma explicação simples para um problema complexo do que aceitar que
determinados fenômenos exigem anos de estudo, múltiplas perspectivas e
respostas provisórias.
É por isso que discursos
simplistas encontram terreno fértil. Eles oferecem uma sensação imediata de
compreensão. O mundo fica dividido entre bons e maus, certos e errados, nós e
eles. Tudo parece resolvido.
Só existe um pequeno problema: a
realidade não é obrigada a ser simples para nos deixar confortáveis.
A ignorância como instrumento
de poder
É aqui que a discussão ganha uma
dimensão ainda mais séria. Uma sociedade que despreza o conhecimento torna-se
mais vulnerável à manipulação.
Se ciência pode ser tratada como
mera opinião, qualquer mentira pode adquirir aparência de verdade. Se
jornalismo é automaticamente descartado como “opinião”, qualquer boato pode
ocupar o mesmo espaço de uma investigação.
Se história é tratada como
narrativa descartável, torna-se mais fácil reconstruir o passado de acordo com
interesses do presente. Se educação é desvalorizada, torna-se mais fácil
convencer pessoas de que conhecimento é privilégio de uma elite.
E se pensamento crítico passa a
ser confundido com arrogância intelectual, a sociedade perde uma das suas
principais ferramentas de defesa. A ignorância, nesse contexto, deixa de ser
apenas um problema educacional. Ela se transforma em uma questão de poder.
Quem controla aquilo que as
pessoas acreditam saber pode influenciar aquilo que elas escolhem, consomem,
defendem e rejeitam.
A democracia também pode
morrer de preguiça intelectual
Existe uma relação profunda entre
conhecimento e democracia. Uma democracia não depende apenas de eleições. Depende
de cidadãos capazes de avaliar discursos, reconhecer manipulações, comparar
propostas, compreender consequências e questionar autoridades.
Quando o debate público se
transforma em espetáculo permanente, a política pode deixar de ser uma disputa
entre projetos de sociedade e transformar-se em competição por atenção.
Nesse cenário, a indignação vale
mais do que a argumentação. A viralização vale mais do que a verificação. A
caricatura vale mais do que a complexidade. E o adversário deixa de ser alguém
com quem discordamos para tornar-se alguém que precisamos destruir
simbolicamente. A política passa então a funcionar como extensão das redes
sociais.
E talvez seja exatamente isso que
torna a alegoria de O Século dos Imbecis tão contemporânea: a comunidade
não apenas observa Agilulfo; ela participa da construção daquilo que ele
representa.
E existe uma saída?
Talvez a grande pergunta deixada
pelo romance não seja simplesmente se estamos vivendo “o século dos imbecis”. A
pergunta mais incômoda é:
- O que estamos fazendo para
não viver nele?
A resposta não pode ser
simplesmente atacar os ignorantes. Isso seria uma contradição. Desprezar quem
sabe menos não produz uma sociedade mais inteligente.
Pelo contrário. Se existe algo
profundamente democrático no conhecimento, é a possibilidade de que ele seja
compartilhado. A saída passa por recuperar o prazer de aprender.
Pela valorização dos professores.
Pela defesa da ciência. Pela leitura. Pelo jornalismo responsável. Pela
cultura. Pela capacidade de conversar com quem pensa diferente. Pela disposição
de admitir um erro.
E, principalmente, pela
recuperação de uma frase que deveria ser uma das mais respeitadas da vida
pública: “- Eu não sei.”
Porque dizer “eu não sei” não é
uma derrota. É o primeiro passo para aprender.
Talvez o verdadeiro perigo
seja ter vergonha de parecer inteligente
Há uma inversão cultural
particularmente preocupante acontecendo em alguns espaços contemporâneos.
Demonstrar conhecimento pode
provocar desconfiança. Ler demais pode ser tratado como pedantismo. Usar
palavras mais complexas pode ser motivo de deboche. Citar pesquisas pode ser
interpretado como tentativa de superioridade. Enquanto isso, a ignorância
ostensiva pode produzir identificação.
É como se uma parte da sociedade
tivesse decidido que parecer informado é suspeito, enquanto parecer
desinformado é autêntico. Esse fenômeno merece atenção.
Porque uma sociedade não precisa
obrigar ninguém a ser ignorante para se tornar ignorante. Basta fazer com que o
conhecimento deixe de ser socialmente admirado.
As mulheres e a possibilidade
de mudança
Há ainda uma dimensão importante
na obra que merece ser observada. As mulheres do vilarejo ocupam um papel
decisivo na transformação da história. A própria apresentação do livro destaca
sua força e sua capacidade de desafiar convenções, enquanto outras leituras da
obra apontam para uma oposição entre a elite que apenas contempla e aqueles que
efetivamente fazem. (Porto Editora)
Isso acrescenta outra camada à
alegoria.
Talvez o futuro não esteja
necessariamente nas mãos daqueles que falam mais. Talvez esteja nas mãos
daqueles que fazem. Daqueles que cuidam. Daqueles que educam. Daqueles que
trabalham. Daqueles que observam silenciosamente, acumulam experiência e, em
determinado momento, decidem mudar o curso das coisas.
Existe uma crítica poderosa aí à
sociedade do espetáculo: enquanto alguns personagens ocupam o centro da cena,
outros sustentam silenciosamente a possibilidade de transformação.
Não precisamos saber tudo.
Precisamos continuar querendo saber.
Essa talvez seja a diferença fundamental entre ignorância e inteligência. Não saber é humano. Não querer saber é uma escolha. E transformar o não saber em orgulho pode se tornar um projeto coletivo.
O Século dos Imbecis é
particularmente incômodo porque não permite que o leitor permaneça
confortavelmente do lado de fora. É fácil olhar para a palavra “imbecis” e
imaginar que ela descreve os outros.
Os ignorantes são sempre os
outros. Os manipulados são sempre os outros. Os fanáticos são sempre os outros.
Nós somos os esclarecidos.
Mas a literatura de Valter Hugo Mãe parece colocar um espelho diante do leitor. A montanha está ali. E a descida também. Subir significa esforço, conhecimento, reflexão, desconforto.
Descer é mais fácil. É mais
rápido. E, muitas vezes, muito mais divertido. A questão é saber quantas vezes
estamos dispostos a fazer o esforço da subida.
O século dos imbecis ou o
século da escolha?
Talvez o título do romance não seja apenas uma sentença. Talvez seja uma provocação.
Porque se estamos realmente vivendo uma época em que a ignorância é celebrada, ainda existe uma escolha. Podemos continuar premiando a superficialidade.
Podemos continuar confundindo
opinião com conhecimento. Podemos continuar transformando redes sociais em
tribunais da verdade. Podemos continuar tratando a dúvida como fraqueza e a
arrogância como inteligência.
Ou podemos reconstruir uma
cultura na qual aprender volte a ser motivo de orgulho. Uma cultura na qual
mudar de opinião diante de uma evidência seja sinal de maturidade, não de
derrota.
Uma cultura na qual o
conhecimento não seja utilizado para humilhar quem sabe menos, mas para ampliar
aquilo que todos podem saber. Uma cultura na qual a curiosidade seja mais forte
do que a certeza.
Porque talvez o grande desafio
deste século não seja combater pessoas “imbecis”. Se fizermos isso, estaremos
apenas reproduzindo a mesma lógica de superioridade que pretendemos criticar.
O desafio é combater a
glorificação da ignorância. É impedir que o desconhecimento seja
transformado em identidade política, produto de entretenimento ou instrumento
de manipulação. É preservar a capacidade humana de perguntar.
De duvidar. De investigar. De
aprender. De mudar.
No fundo, talvez seja isso que
Valter Hugo Mãe esteja nos dizendo através de sua fábula: não existe nada de
vergonhoso em não saber. Vergonhoso é transformar o não saber em orgulho.
Mais grave ainda é transformar
esse orgulho em regra coletiva.
Porque quando uma sociedade
começa a rir de quem estuda, desconfiar de quem pesquisa, desprezar quem pensa
e admirar quem fala com absoluta certeza sobre aquilo que desconhece, ela não
está apenas perdendo conhecimento. Está perdendo a capacidade de distinguir
o conhecimento da ignorância.
E quando uma sociedade perde essa
capacidade, qualquer coisa pode ocupar o lugar da verdade. É aí que começa, verdadeiramente, o perigo.
Talvez ainda haja uma montanha
para subir. E talvez a literatura seja uma das formas mais bonitas de nos
lembrar que precisamos fazê-lo.



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