Dinalva Heloiza
Hoje, 7 de setembro, dois dias depois de completar meus 6.7 de idade, me pego caminhando pelas lembranças da infância. Volto, através da memória, aos chamados anos dourados, àquele tempo em que o mundo parecia imenso, mas cabia inteiro dentro de um olhar curioso, de uma brincadeira, de um quintal, de um sonho inventado sem limites.
Talvez seja por isso que,
ainda hoje, quando observo uma criança, alguma coisa em mim reconhece aquele
tempo. Pequenos Sóis, cheios de luz, pureza, espontaneidade e uma sabedoria que
muitas vezes nós, adultos, desaprendemos. Há algo profundamente revelador na
maneira como enxergam o mundo: seus gestos serenos, suas perguntas
desconcertantes, suas palavras fortes e inocentes, seus sorrisos sem cálculo e
essa imaginação sagaz capaz de transformar o pequeno em infinito.
E então penso que talvez sejam
eles, os pequenos, que ainda nos ensinam a enxergar aquilo que a vida adulta,
tantas vezes, nos fez esquecer.
Porque sobre seus pequenos
ombros repousa uma responsabilidade que não lhes pertence: o mundo que nós,
adultos, estamos construindo para eles. E é impossível contemplar a pureza de
uma criança sem perguntar que mundo estamos deixando como herança.
Um mundo precisa ser maior do
que o ódio, maior do que as disputas que nos separam, maior do que as
ideologias que transformam diferenças em muros. Precisamos reencontrar a
humanidade que existe antes de qualquer rótulo, antes de qualquer interesse,
antes da lógica fria do lucro e do mercado.
Precisamos, talvez, reaprender
com as crianças.
Voltar ao essencial. Ao
abraço. À delicadeza. À capacidade de perdoar. À coragem de perguntar. À
liberdade de imaginar. Ao amor que não exige fronteiras para existir.
Porque todos nós chegamos ao
mundo despidos de riquezas, títulos, certezas e amarras. E assim também
partiremos.
Entre uma chegada e uma
partida, talvez a nossa maior missão seja simplesmente esta: fazer com que o
amor prevaleça.
Por todos os nossos dias.
Por todos os lados da nossa existência.
E, sobretudo, por aqueles Pequenos Sóis que ainda iluminam o mundo com a pureza
de quem acredita que ele pode ser melhor.
É sobre eles.
Mas, no fundo, talvez seja também sobre nós.
Segue aqui um poema, sobre esse sentimento.
Pequenos Sóis - Dinalva Heloiza
Nas manhãs que ainda insistem em nascer,
há passos leves pelo chão da sala,
um riso solto que insiste em viver
como quem nunca soube o que se cala.
Olhos que inventam mundos no quintal,
veem castelos onde há só poeira,
fazem do simples algo essencial,
reinam verdadeiros à tarde inteira.
Criança é vento que não pede licença,
é luz que brilha sem saber por quê,
carrega no peito uma imensa crença
de que o amor é tudo o que há de ser.
Nos gestos calmos a eternidade,
num abraço breve cabe o infinito,
e em suas falas — doce sinceridade —
em um pequeno sorriso nos doam o que há de mais bonito.
Perguntam tudo com sabedoria,
respondem pouco… mas ensinam tanto,
enxergam beleza onde ninguém mais via,
e fazem do riso um sagrado encanto.
São pequenos sóis em forma de gente,
a nos lembrar, com suave insistir,
que o agora é vasto, é puro, é presente,
e que viver… é também se redescobrir.
Se o mundo pesa, elas vêm como brisa,
trazendo leve o que a alma esqueceu,
e na mais simples, breve e doce risa,
nos devolvem tudo o que já foi nosso… e ainda o é,
só que adormeceu.

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