Dinalva Heloiza
A história republicana do Brasil expõe um paradoxo marcante: a autonomia institucional para investigar a corrupção nos mais altos escalões do poder público, do Judiciário e do sistema financeiro só encontrou respaldo pleno e ausência de interferência direta sob as gestões do Partido dos Trabalhadores.Longe de ser mero acaso, o avanço
do combate ao crime de colarinho-branco no país foi impulsionado pelo
fortalecimento da Polícia Federal, pela independência dada ao Ministério
Público Federal e pelo respeito republicano às decisões magistrais — uma postura
que contrasta historicamente com a tradição de blindagem e aparelhamento
observada em outro governo.
Essa política de não intervenção
permitiu que, muito antes do surgimento da Operação Lava Jato, a Polícia
Federal desmantelasse esquemas profundos e enraizados que ligavam o sistema
financeiro, o mercado de capitais e até setores do próprio Poder Judiciário.
No âmbito do sistema financeiro, operações emblemáticas revelaram o tamanho das engrenagens da lavagem de dinheiro no país, o que coincidiu justamente nas gestões eficientes do governo Lula:
- Operação Banestado (2003): Verdadeira
"mãe" da Lava Jato, desvendou o envio ilegal de cerca de US$ 30
bilhões ao exterior por meio de contas CC5 na década de 1990. Foi nela que
a PF e a Justiça Federal no Paraná — sob condução do então juiz Sergio
Moro — mapearam a rede de doleiros do país, incluindo Alberto Youssef, que
anos mais tarde reapareceria no centro da Lava Jato.
- Operação Satiagraha (2008): Mirou crimes
financeiros e lavagem de dinheiro envolvendo grandes bancos de
investimento, resultando na prisão de banqueiros e investidores
proeminentes.
- Operação Castelo de Areia (2009): Mapeou
esquemas de evasão de divisas e propinas envolvendo executivos de grandes
empreiteiras, antecipando o modus operandi que reapareceria anos depois.
Simultaneamente, a autonomia dada
às corporações policiais permitiu investigar o insulado sistema judiciário e
de controle:
- Operação Anaconda (2003): Desarticulou uma
rede de venda de sentenças e facilitação de contrabando integrada por
juízes federais e advogados.
- Operação Hurricane / Furacão (2007): Atingiu
o alto escalão do Judiciário, prendendo desembargadores e ministros de
tribunais superiores envolvidos na concessão de liminares para o jogo do
bicho e bingos.
- Operação Navalha (2007): Revelou o pagamento
de vantagens indevidas a membros de Tribunais de Contas e magistrados para
liberação de verbas e obras embargadas.
A própria Lava Jato nasceu em
2009 como um desdobramento natural e técnico dessa rede de monitoramento
financeiro, acompanhando doleiros e movimentações atípicas até culminar na fase
ostensiva em 2014.
Entretanto, o desenrolar dos
fatos sugere que essa postura republicana de permissão irrestrita às
investigações acabou sendo instrumentalizada. Ao dar total liberdade sem
construir salvaguardas contra o uso político de corporações, abriu-se espaço
para que atores do sistema de justiça — amparados pelo mercado financeiro e
setores da mídia — direcionassem o foco das operações contra o próprio projeto
político do PT e a figura do presidente Lula.
A seletividade que tomou conta
da Lava Jato transformou um esforço de combate à corrupção em uma campanha
personalizada de estigmatização, alimentando uma narrativa que buscava
interditar politicamente a esquerda, alimentando uma rede de ódios que mantinha
tanto o governo Lula, quanto o próprio partido, como os grandes “corruptos e
ladrões”, um estigma bastante oportuno para direcionar as investigações contra
o próprio governo, que na verdade tinha em foco o combate a corrupção.
Uma "bela" tacada do ex juiz.
Atualmente, em seu terceiro
mandato, o desafio enfrentado por Lula ganha contornos ainda mais complexos. Ao
combater escândalos de proporções inéditas no sistema financeiro — como os
desdobramentos e ramificações de grandes fraudes e crimes do mercado de
capitais relativos ao Caso Master —, o governo volta a colidir com
engrenagens profundas de poder.
O cenário presente impõe uma
tripla frente de batalha: a necessidade de enfrentar um sistema financeiro
estruturalmente resistente ao controle, um sistema judiciário com fissuras e
contradições internas, e uma oposição articulada a redes de milícias e com
fortes conexões e apoios políticos externos.
Assim, o fio condutor da história
recente demonstra que a disposição do PT de permitir o livre agir das
instituições policiais e judiciárias não apenas expôs os intestinos do poder no
Brasil, mas também colocou o projeto progressista no centro do alvo daqueles
que não aceitam ter seus privilégios e esquemas devidamente investigados.
Acaso não seria essa a razão de
uma máquina tão poderosa estar atuando de forma sistemática, e profunda junto a
extrema direita, e alcançando respaldo inclusive do governo americano, para que
essa mesma ala subserviente e conivente com o crime organizado, desafiadora da
ética e do verdadeiro compromisso da política com a cidadania, fosse elevada de
volta ao poder com tanto apoio, o que desconfio sinceramente que haja muito
dinheiro envolvido nesse substancial apoio de última hora.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comente essa Postagem