E como projetar um novo modelo à
sociedade, fundado precisamente no conceito de humanidade?
Adama SAMASSEKOU nos responde, ele é o mentor e presidente de uma das
mais importantes conferências deste século, a Conferência Mundial de
Humanidades, que acontece na Bélgica, em Liège, Uma parceria da UNESCO com o CIPSH, a cidade também reconhecida como
"Cidade Ardente", tanto em espírito quanto em desenvolvimento, é multicultural, e se localiza no coração da Europa, onde ocorre este que é um
evento sem precedentes na história da humanidade, sob o alto patrocínio do Rei
da Bélgica, a WCH - Conferencia Mundial de Humanidades.
Diante o fracasso do atual modelo em desenvolvimento, onde prevalecem valores em cultura do ter, em detrimento dos
princípios da cultura do Ser, é imperativo que se estabeleça um novo paradigma às
sociedades de todo o mundo, e que este novo modelo, tenha em suas bases, a
humanidade e seus princípios mais valorosos, um modelo que priorize as relações
humanas, em única saída possível aos indivíduos e sociedades, diante o
desencanto que se estabeleceu.
Humanitude - são as nossas relações humanas para com outros humanos é também, o nosso exercício permanente
em sermos humanos, nossas relações em humanitude, o que exige
uma relação permanente de solidariedade - livre do cálculo - um impulso
espontâneo em acolher o outro. A humanidade torna possível "conectar
humanos a humanos", ao contrário de uma cultura totalitária em
"ter", o que leva a relações de aquisição permanentemente
conflituosas, e mesmo dominadoras.
Adama SAMASSEKOU
A ideia inicial de promover uma
Conferencia Mundial de Humanidades, surgiu para Adama SAMASSEKOU, em 2009, quando
ele exercia seu primeiro mandato como presidente do Conselho Internacional de
Filosofia e Ciências Humanas (CIPSH), organização não governamental criada sob
os auspícios da UNESCO em 1949.
Em primeiro lugar, os episódios
recorrentes em instabilidade que alcançou fortemente as sociedades durante o
período 2008/2009, provocando a crise global financeira, um acontecimento
que ao final tornou-se mais do que apenas uma crise financeira ou econômica, tendo
se transformado em uma crise "generalizada".
Na verdade era uma crise de
humanidades, o que de certa forma, confirmou a falência do modelo dominante do
desenvolvimento neoliberal, praticado principalmente pelos países ocidentais, provocando
uma profunda perda aos valores humanos.
A segunda observação, pontuada
por Adama, foi a progressiva marginalização das ciências humanas, fato que
ocorreu em contexto global. “Como admitirmos, que diante uma situação caótica e
crise generalizada, enquanto, aqueles que detinham a responsabilidade em nos
explicar a complexidade das transformações sociais, estarem ali paralisados e incapazes
de se mover?”
O terceiro ponto, que
definitivamente levou Adama a essa reflexão, ocorreu ao perceber a falta de
envolvimento, senão a ausência total, e mesmo o abandono de estudiosos das
ciências humanas em todo o mundo, ao exercício da produção e cooperação
intelectual global. A situação foi agravada pelos riscos do desaparecimento de conhecimentos
tradicionais e mesmo, a extinção de metade das línguas do mundo - estas que
agora são conhecidas como epistemicidas e linguicidas.
Por essas observações, conclui
Adama, é que em 2009, “pareceu-me não apenas óbvio, mas também imperativo,
propor que a UNESCO organize uma Conferência Mundial de Humanidades (WHC). A
primeira tentativa desse tipo teria como objetivo, dar início ao processo de
reabilitação das ciências humanas em todo o mundo.
Tornou-se comum dizer, que o
nosso mundo, se encontra em meio a uma crise multidimensional, e aparentemente
sem fim. Esta crise, de fato revela uma perda de significado, reforçada por uma
tendência à homogeneização das culturas do mundo, e pela globalização acelerada
dos mercados.
Esse fator está provocando uma
verdadeira desumanização nas relações entre indivíduos, sociedades, povos e
estados. Os recentes desafios
ambientais, energéticos, demográficos e digitais - somados às desigualdades e à
pobreza existentes, acentuam o sentimento generalizado de angústia existencial
e a falta de confiança no futuro.
O modelo de desenvolvimento que
mais prevalece em tempos atuais, está baseado no que eu chamo de cultura do
“ter”, do lucro, diz Adama. Este modelo
já mostrou suas limitações. E a crise atual, confirma sua falência. É um modelo
responsável pelo euro centrismo e o centrismo ocidental, reconhecidos nas
relações internacionais, tanto em termos de bens como de produção intelectual.
Como resultado, uma mudança de paradigma
centrando seus esforços em promover valores mais alinhados com a cultura do
“ser”, tornou-se imperativa.
Uma ansiedade insuportável
A questão central para a
realização da Conferencia Mundial de Humanidades (WHC) - é discutir o papel das
ciências humanas no século XXI, caracterizada pela diversidade cultural, o
fracasso de várias formas de pensamento que caminham em uma só direção, e a
necessidade em se reintroduzir considerações de médio e longo prazo ao raciocínio
diário.
Este é um século alcançado por
questões prementes, e ainda sem ações solucionáveis, a exemplo das alterações
climáticas, migração crescente, tensões sociais e econômicas - cuja resolução
depende em grande parte das habilidades interculturais, e a imperiosa compreensão
da unidade humana com toda sua diversidade. É ainda de fundamental importância
o atendimento das necessidades em se reforçar as relações das ciências com todas
as disciplinas, bem como as artes e as tecnologias.
O início deste século figura em um
avanço estrondoso do terrorismo global, não poupando nenhuma região no mundo,
nenhum país, com violências que atingem cidadãos e cidadãs, tão cegamente quanto
atinge animais, e as maiores vítimas são inocentes, vítimas de uma violência
gratuita, bárbara e indescritível.
O planeta atravessa uma ansiedade
insuportável, tanto mais que tais atos de violência - conhecidos somente durante
as conquistas e guerras de libertação colonial, permaneceram relativamente na
obscuridade desde a Segunda Guerra Mundial, com poucas exceções.
O objetivo principal da
Conferencia Mundial de Humanidades- WHC é, portanto, estudar maneiras pelas
quais as humanidades estão colaborando, ou mesmo, possa vir a colaborar em
nível nacional, regional e internacional, à compreensão e mensuração das transformações
culturais ligadas à globalização gradual das trocas de informações, a fim de
gerenciá-las melhor - em todas as suas dimensões econômicas, sociais e
ambientais.
Diante da crise social e humana
que estamos vivenciando e de um mundo quebrantado onde o processo de
desumanização é crescente, e continuamente, ganha força, a
ambição do WHC é construir um diálogo fértil entre as mentes de hoje sobre os
desafios, as soluções e novos conhecimentos, através do qual as humanidades
podem tornar nosso mundo mais legível, menos opaco, menos antagônico, menos cruel
e ao mesmo tempo, que promova à nossa esperança compartilhada, os princípios
valorosos em humanidade.
As humanidades são uma celebração
de gênio entre as línguas humanas e do conhecimento, decorrente da proliferação
de nossas práticas sociais, políticas, econômicas e artísticas.
Reabilitação e reconstrução das ciências humanas
O título do WHC, "Desafios e
responsabilidades para um planeta em transição", coloca claramente as
questões subjacentes a esta conferência. Segundo a UNESCO, os principais
desafios do nosso planeta em transição são: crescimento populacional; A
recomposição de territórios; Fluxos de migração; Restrições energéticas e
ambientais; A homogeneização das culturas no contexto da globalização - e
inversamente, a construção de novas identidades; E a chegada da era digital,
que muitas vezes cria uma sociedade dividida.
Existe o sentimento de que os
modelos de desenvolvimento prevalecentes falharam, especialmente o modelo
neoliberal que parece se impor contra os povos do mundo. Neste contexto,
torna-se imperativo reconsiderar o papel das ciências humanas nas nossas
sociedades contemporâneas. Precisa ter em conta as especificidades e os
recursos inerentes a cada cultura, valorizando-as sabiamente e as
possibilidades de troca, de diálogo e de enriquecimento mútuo entre elas.
O WHC é, portanto, uma
oportunidade de recuar para reabilitar e reconstruir as ciências humanas,
produzir uma mudança de paradigma, permitindo a reinvenção de um mundo fundado
no respeito pela sua rica diversidade cultural e linguística. Este novo
paradigma nos permitirá substituir as relações conflituosas da concorrência por
uma solidariedade genuína e universal, que é a única maneira de ajudar a
enfrentar os desafios do nosso planeta em transição!
Em suma, temos que saciar a sede
deste planeta em humanidade, vivendo e consagrando nossa Humanitude!
Adama Samassékou (Mali) é presidente da World Humanities Conference
(WCH). Ex-ministro da educação nacional no Mali presidiu a comissão
preparatória da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, (Genebra,
2002-2003). Samassékou também foi o primeiro secretário executivo da Academia
Africana de Línguas da África (ACALAN), com sede em Bamako. Depois de dois mandatos
como presidente do Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas
(CIPSH), de novembro de 2008 a outubro de 2014, onde atualmente é presidente
honorário.
#WordHumanitiesConference
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